Capítulos passados a limpo

I

E porque a família mãe pai e filhas vivem distantes de avós tios primos o Natal sempre teve sinônimo de viagem. O pai levava de véspera o carro pra oficina a mãe preparava as malas e acomodava lanchinhos em caixas térmicas. Madrugada, casal envolvia-se nos preparativos café-da-manhã reforçado escova de dente com pasta na borda da pia casaco e blusa de verão pra garantir sucesso em eventuais mudanças no humor do tempo.

A família seguia e Belo Horizonte ficava pra trás ao som de cantigas infantis pra caçula roquinhos nacionais pras mais velhas música brasileira e qualquer outro gênero previamente gravado e etiquetado em fitas K7 de 90 minutos. Três Corações, cidade famosa por ser a de origem do Rei do nosso futebol, era o primeiro pouso. Dividir a viagem era a gostosa desculpa para rever tia tio primos também desgarrados do núcleo maior da família. E rever o piano tocar com cuidado o piano sentar-se no banquinho redondo e frágil e inventar que era musicista famosa. Na manhã seguinte, café farto mesa com quitutes interioranos convidavam viajantes ao atraso previsto. Por vezes havia a necessidade de estender o paladar até o meio dia e a mesa de desjejum dava lugar a pratos de porcelana guardanapos bordados e grandes copos translúcidos –bonitezas que alimentavam conversinhas e novidades compartilhadas devidamente antecipadas aos parentes da grande São Paulo de quase já. Nesses casos, o empenho para a continuação da viagem só acontecia depois de um breve cochilo. Depois do descanso hora de despedidas e estrada e música.

Expectativa das filhas transformava a última hora de viagem em sequências alternadas de ‘já ta chegando’ ‘quanto tempo falta’ agitação que se alongava até que alguma delas, geralmente a caçula, apontava alguma construção reconhecidamente localizada próxima à rua dos avós. E quando o carro se postava em frente ao grande portão semi trancado por um cadeado tia avó avô e quem mais ali estivesse já estavam todos lado a lado sorrisos e acenos prontos para a farta recepção.

A casa em festa: ‘fizeram boa viagem’, antecipava a avó vestido abaixo dos joelhos sempre do mesmo corte e em variâncias somente no padrão do tecido ora de florzinhas ora dois tons ora fundo bege com abstrações.  Avô boina suspensório calça de linho e camisas xadrezes dava a nítida sensação de que dias antes memorizava alguma historinha pras netas uma pro filho outra pra nora das mais prediletas. Sua vestimenta o tornava a figura mais explicita de um homem brando à espera dos seus.

Pouco a pouco juntavam-se à casa outros tios tias primos primas e o que se via era festa sorrisos risadas sentimentos em estado puro, latejantes. Os homens se ajuntavam num canto qualquer aglomeração de novidades e num círculo preciso repassavam o ano entre um café pedaço de bolo de fubá e outras abstrações.

As mulheres se reuniam na cozinha num revezamento entre a mesa de canto banquinhos que interrompiam a passagem para a sala e a bancada da pia – extensão para o fogão de onde saíam os pratos ao gosto de cada filho.

As crianças todas primas primos raros e constantes vizinhos tomavam o resto da casa espalhadas. Dividiam-se em brincadeiras de boneca soldados TV jogos de cartas e tabuleiro e as vozes juntas somavam o zumuzumzum típico de quem é pequeno e sabe da urgência de aproveitar momentos com a necessária intensidade.

A grande mesa servia de encontro pros homens da rodinha de conversa com as mulheres da cozinha e as crianças de todos os cantos. O avô ocupava a cabeceira e depois de sorver a taça diária de vinho tinto recebia da avó – se preparava para receber da avó – o prato com comidinhas ao seu gosto exato. Só depois desse ritual é que os outros todos se metiam à deliciosa disputa de se aproximarem dos panelões e travessas. Na mesa ficavam os mais velhos. E as visitas. Embora houvesse espaço reservado pra quem veio de longe a preferência das irmãs era dividir com primas primos os degraus da escada ou outro canto qualquer. Por vezes comia-se em turnos num revezamento de lugares e pratos copos talheres. Por vezes eram todos a um só tempo.

Gostoso era ver o avô, os olhos do avô. Alegria se tem morada vivia ali, naqueles olhos. Comia devagar como que para ter o tempo da apreciação ao mesmo tempo do sabor do alimento e do momento. E quando os talheres pousavam no prato e a cabeça erguia pouco acima do natural campo de visão a neta recém chegada tinha como certo. Aquilo tudo pra ele era o mundo todo. Um mundo em que ele fazia – junto com a avó – às vezes do Criador.

II

Devia ser lei registrada em cartório: em casa de avós é indispensável um quintal.

Quintal com horta cheiro de erva e plaquinhas feitas de pau de churrasco e envelope de sementes pra orientar o visitante. Quintal com espaço arquibancada de alvenaria pra caber festa missa encontro despedida. Quintal com quartinhos despregados do resto da casa feitos especialmente para a sesta para a hora precisa de alguém com necessidade de se distanciar. Só para depois voltar cochilo em dia para a grande casa. Bem verdade que a criançada recebia ordem de conter a exaltação principalmente se era o avô um dos ocupantes de um dos quartinhos. Ou algum outro núcleo familiar recém chegado de viagem – porque a família é grande e cria outras famílias que dão de se espalhar. Mas isso não exercia grandes influências e a brincadeira se dava mesmo com uma advertência ou outra. Pique esconde pega-pega casinha. A preparação das comidinhas imaginárias seguia o mesmo modelo da casa e era uma fartura de ingredientes meninas e meninos em volta do formigueiro abandonado que fazia as vezes de fogão.

Um primo gostava de fazer balão. Outro; pipa.  E o quintal virava ateliê improvisado bambu grude retalhos de papéis barbante formas desprezadas e formas aproveitadas. E era um deles despontar que pouco tempo adultos e crianças paravam os seus empenhos para ver surgir ali no meio do quintal as pandorguinhas enfeitadas e os balões previamente arquitetados. A função costumava durar dias e quando os primos davam tudo por acabado o chão do quintal quase não se via.

Um e outro tio examinava os artefatos e pitaqueavam ‘não vai subir, ta frouxo, ihh, não tem resistência pros ventos de agora’. Uma e outra tia achavam bonito ‘vê que lindo essa mistura de cor, parece colcha’. Todas as crianças ficavam como que em transe.  E todas já sabiam que tinham que esperar a noite para presenciar a dança do balão pelo céu e ainda assim era espera cruel e incerta que só virava realidade de as condições do tempo ajudassem.

O dia tinha um tempo outro passado ali naquele quintal. O tempo tinha outros ponteiros mais sensíveis aos desejos menos desesperado por grandes acontecimentos. A vida tinha o gosto das ervinhas o cheiro do fumo de rolo do avô a forma inventada pelos criadores das pipas e dos balões.

Devia ser lei – toda casa de avô tem que ter quintal.

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A Casa dos Pais

Botaram plantas e flores e peixes e pedras e cimento e motor e grama. No que antes era nada fez-se fonte cascata barulhinho de água – pequena cachoeira: tem quintal na casa dos pais. O quintal da casa dos pais tem chão fértil que aceita tudo árvore flor passarim. Qualquer bocado de vida multiplica vira calango joão-de-barro orquídea tucano banana peixe galo manga formiga. E mais.
O pai acorda cedo a mãe dorme tarde. Os dois. A casa dos pais onde o amor nasce bruto lapida os sentires todos: conversas sorrisos silêncio afetos escolhas verdades ação e cochilo depois do almoço. Algumas caseirices teimam em pontuar os encontros e isso é bom: a casa dos pais acorda os sentidos e os porquês.

Criança tem. Duas. A casa dos pais é também casa de avós. Balanço mora no galho generoso da mangueira brinquedos espalham alegria cor e bagunça pelo chão. A mãe-avó faz as vezes de professora para a neta mais velha e despe-se de adultices pra brigar – como se dois ou três anos tivesse – com a neta mais nova que sabe bem o que quer. Pai-avô é só ternura embora se porte feito pai mandão que nunca fora quando alguma das netas se esborracha no chão.

O sol entra de manso pela fresta da janela. O dia corre pelos jardins passa rápido ora leve ora agitado e a noite deixa todos ainda mais tagarelas. A mãe das pequenas ri. É mãe irmã e filha. Tudo junto e separado é mulher, ainda. E menina. A irmã do meio é todo um universo. Chega sempre com descobertas e traquinagens. Sempre fora assim dada aos prazeres. Descobriu outro dia que vai viver cercada de brincadeiras sempre. A mais velha tem mais dúvidas do que respostas mas gosta vez ou outra de botar reparo no entorno. E tenta fazer disso alguma poesia.

Vovô Fumaça

Vovô foi sempre um sujeito muito interessante de se botar reparo. Talvez por seu estereótipo fácil de avô calças de pregas xadrezes boina orelhas narizes e lábios grandissíssimos. Um copo de vinho na hora do almoço uma soneca no quarto dos fundos passeios na horta um banco e um jeito bom de olhar para  a criançada no pátio. Netos, bisnetos, filhos e filhas, família grande mineira alocada em São Paulo desde os anos 70. Falava baixo lento embolado. Como meu pai fala como falam meu tio e outro tio e uma tia também. Ria fechando os olhinhos ria pouco como se soubesse que bastava a si e aos outros o semblante digno de gente humilde e feliz na maioria das vezes. Muito para além do vinho das calças e boinas, vovô tinha cheiro de fumo de rolo. Era como se o cheiro de fumo de rolo o definisse, vovô em estado puro distante de qualquer similaridade. As mãos toscas de roça e seus dedos largos carne dura calos manipulavam o canivete lentamente e com precisão absurda e paciente. Após almoço subia um lance curto de escadas – que ficava na sala de jantar lado oposto ao da cabeceira de vovô – sentava-se na cadeira de madeira abria a gaveta do armário que servia de mesa tirava palha e saquinho de plástico com o fumo – cobras negras e magras. Do bolso tirava a embalagem que abrigava o canivete e punha-se à tarefa diária que o tornava o único a ter a presença marcada tão fortemente por um odor nada aprazível e ainda assim delirantemente delicioso. Demoraria o quanto fosse para fazer o cigarro ideal mais um cigarro cuidadosamente elaborado amigo fiel e constante da digestão embalada com vinho tinto de todos os dias e de todas as horas de todas as memórias. Descia para cumprir as horas que ainda cabiam no relógio de parede para voltar quando a tarde já dava sinal de envelhecimento. Outro cigarro era embalado em palha outro tempo se abria outra forma de passagem da vida vinha. Madrugada, a casa dormindo em silêncio, tudo imóvel a não ser pelo ar quente saído indefinidamente do quartinho do segundo piso que dava para o lance das escadas da sala de jantar. O cheiro dele, presença sólida, estado puro, protegia contra insetos pesadelos ideias de morte.

Minha afilhada,

Este dia há de se repetir no calendário

há de chegar noutro ano ou no próximo ou no próximo ou.

Basta se lembrar, meu amor, que suas aflições sempre foram atendidas – senão no seu tempo – em tempo exato e natural.

Os cabelos, por exemplo: você não os tinha longos quando era ainda menor que sua irmã hoje. E então você pedia para mãe avó tia ou madrinha que amarrasse em seus cachinhos gigante pano colorido só para sair com o avô de carro e ver a cabeleira de seda botar voo pela janela.

Hoje seus cabelos fartos e coloridos são manuseados por você com enorme intimidade. E é você quem decide se vai manter cachos para ir à aula ou se vai escová-los até a perfeita lisura para uma sessão de cinema.

Já é passado também a sua imagem no espelho à procura de peitos a busca incessante de tê-los para caber num decote. E hoje eles não estão aí com você o tempo inteiro? Lindos lindos sem necessidade de meter meia limão ou qualquer outro aparato que faça as vezes de.

E tem a praia que você queria conhecer e conhece; tem os filmes impróprios para a idade que foram vistos com a família ou mesmo escondidos porque temos isso de experimentar algumas coisas só com a gente e em segredo.

Tem a 1ª vez que você dormiu na casa de uma amiga e não sentiu medo. Tem a descoberta de gostar de falar inglês e a doçura para cantar em qualquer língua que se apresente. Tem a calma e a paciência que você exerce com a pequena irmã. A calma pedida muitas vezes de olhinhos fechados na hora de dormir – Deus, dê-me paciência pra dar contra dessa baixinha.

Tem a 1ª vez no salão de beleza, a 1ª festa à noite com DJ e música e fantasia porque você é assim, bota na vida o paetê que ela merece. Tem o 1º absorvente, o 1º pedido negado, a 1ª apresentação de dança – e não são, todas as vezes, sempre a 1ª vez?

Tem o medo do escuro e a vontade de dormir com as luzes apagadas

tem a vontade de comer doce e a vontade de entrar na calça jeans.

Tudo no seu tempo. Aproveitar ao máximo essa espera é que é delírio de quem almeja fruir o máximo da vida. Então, mocinha que sempre será pequetita em meu coração, grave bem o que a sua madrinha diz agora:

um dia qualquer sem que você nem perceba sem que você nem faça força

o 1º beijo acontece. No tempo que o tempo julgar viável

no tempo que tiver que ser

no tempo redondinho e exato. Acontece o beijo acontece o amor acontece a bochecha corada acontece a pele vermelha, vergonha e prazer

cumplicidade.

Acontece a vontade e a vontade de experimentar simplesmente acontece.

E você vai descobrir que este dia que se repete todos os anos nunca será mais importante do que aqueles que marcam suas experiências próprias. E você vai descobrir que o Dia dos Namorados mais legal de todos será aquele que você inventar ou for convidada a.

memória

… cheia de delicadezas é a memória
projeto fora do papel moldurado
expositivos pedacinhos delicados de artesão
artista criador
varandica compartilhada, a memória
dos antigos dos de sempre dos novos dos queridos

espaço para construção
arremate de tempos idos
alinhavo de cousinhas mis coloradas
dispostas em reticências
convidativas pecinhas de memória de outrem e a possibilidade, porta aberta
pra começo de outra história que vem da cadeira herdada de avó de nome divino, das histórias da avó de nome divino
memória fresca de novos e velhos lugares pessoas nomes incertezas

ah, memorinha doce que apetece o lar!

 pra Rê

Ofício

Isso de amar a palavra, ordenar a frase na medida da lauda, arrancar dos fatos ácidos do cotidiano algum sentido poético de cronista;
Isso de ordenhar do verbo. Evitar a repetição, criar novos formatos para velhas fôrmas;
Isso de correr contra o relógio, de abrir email, falar ao telefone, anotar números sem nomes, perder o ar;
Isso de escolher uma imagem, de acolher uma sequência, aceitar o corte;
Isso de “entrar ao vivo”, isso de improvisar no 1º, no 2º e no 3º ato, decorar passagens e ser instrumento passageiro;
Isso de correr. Isso de estar entre fios e máquinas. E entre gentes e histórias. Isso de não poder mudar histórias. Isso de contar histórias. Isso de se saber parte, de sentir angústia, de fazer hora extra, isso de olheiras e de café;
Isso de assinar. Isso de anonimato. Bloco de notas, caneta sem tinta, atrasos e trânsitos. Isso de se embriagar. Para esquecer, para lembrar, para tornar lúcido e trazer à tona. Isso de ter na bagagem um pouco da loucura dos poetas, isso de Internet e cheiro de livro. Isso de antíteses.

Isso, sobretudo, de acreditar.

Homem só mulher vazio

Sempre desejei beijo de puta
Roto homem que sou
As via esquinas
vias ruelas
calçadas povoadas de justas
calças brilhantes
salto alto bustiê

Sempre desejei beijo de puta
Antes mesmo de tê-las
Nuas
cigarro entre os dedos
indicador e aquele que indica
onipresente – o caralho
vaivém de fumaça e bicos
dos seios
vermelhos rubros quebrados

Sempre desejei beijo de puta
por sabê-las intocadas
alma bruta vaga
mulheres sem nome
endereço ou
parentesco
janelas sem violetas
vidas feito essa
a minha
de remendos.

———-

Dançarina
queria palco sempre quis
roupa de brilho coque
fru-fru e rosa
choque
Sapatilha entregou os pés
aos salto
saltos estreitos
que a trancos e barrancos
se equilibram sobre
paralelepípedos, buracos
vazios que me lotam a alma
desespero
sobressalto

Palco mesmo é rua de poste
com sorte um afago
gratuito. Carona sem cobrança
ou desconto no preço final
talvez lembrança de vida
sonhada
que não o inverso
que não a morte

Dançarina que não fui
Pari filho sem pai
foi ballet desesperado
em noite sem gala
beco num pulo vira maca e
sem treino obra de quem?
aconteceu João
mirrado magro pequeno

O filho hoje vai bem
obrigada
dança funk na quadra
Do Morro
lava minhas roupas
me toma nos braços
me compra música bonita
me devolve um pouco
daquilo que em mim é sonho
um pouco de mim
parte tomada

E as manhãs
todas
vem João pés descalços
senta ao chão de cimento queimado
pede dança
antecipa palmas
e bis e olhos vidrados

Eu bailarina exata
boto a velha sapatilha
apertada
mando-lhe beijo no ar tomo fôlego ergo a cara
e sou só entrega
ao filho legitimo da puta
(que me olha que me devora)
e desejo sorte vida leve
amor de gente pluma

João nem sabe
ao menos por palavra concreta
mas é ele, só ele o
único homem que me viu chorar.