Tudo aquilo que contém qualquer fórmula

Se eu fosse menos medrosa usaria iniciais. Se temesse menos o anonimato usaria em símbolo tal qual aquele cantor esguio que fez sucesso por não ter – como diria vovó – arruelas nos quadris.

Acontece que sou vaidosa. Gosto de escrever meu complexo sobrenome lentamente em tudo quanto é lugar que exige uma simples rubrica. Nutro verdadeiro pavor por formulários econômicos que disponibilizam um espacinho de merda para a assinatura. Há também aqueles antigos em que aquele que o preenche se vê obrigado a escrever, letra por letra, em minúsculos quadrados: nome completo, filiação, endereço, formação como que te obrigassem a redigir e letra de forma. Escrevo corrido desde que aprendi a letra cursiva: apaixonei-me por vê-las todas sempre de mãos dadas, unidas e dispostas a fazerem sentido. Desde então, odeio ver, em qualquer situação, letras separadas. Todas em caixa alta, tirem-me daqui, me dão calafrios. Pensá-las brigadas e infantilmente carentes por atenção me entristece grandemente, mesmo eu sendo aquela que escreve em letras corridas e revisa em letras grandes e solitárias.

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Pois esses formulários de letras de forma forçosas não poderiam ser generosos. Não se prestam nem a esboçar um traço diminuto para a assinatura. Colocam à disposição do exausto preenchedor uma caixa como que parecida com um retângulo de altura parca que encerra toda e qualquer chance de extravaso.

Acho que ainda não mencionei o fato de que tenho cinco sobrenomes e que jamais pensei em abreviar quaisquer uns deles. Sempre que essa ideia me vem à cabeça, logo imagino meus antepassados me recebendo com desdém do outro lado da vida:

– Ah, chegou aquela que reduziu nossa árvore genealógica a um dáblio e ponto.

– Vejam só se não é a preguiçosa que adotou o nome do meio da outra família.

Preciso confessar que estabeleço relações de amor e ódio com pessoas de nomes enxutos, sintáticos: Maria Duarte, Flor Silva, Ana Torres.  A ideia de ser assim, tão trivial, esbarra na vontade de sentir-me única ao mesmo tempo que invejo certas facilidades: imagino o prazer de sempre caber nos formulários e em cartões de aniversários coletivos –  neste último caso, os ditos ganham certo destaque já que podem ser escritos em fontes maiores. Imagino a vida fácil de João Silva que, ao receber uma ligação para confirmação de dados, resolve o nome completo em idiotas segundos. Eu preciso de um copo d’água sempre perto para essa empreitada. Falta-me o ar, perco a paciência, a esperança e me desespero em micro ataques de pânico ansioso.

Nessas horas, imagino-me preenchendo, no ar, os tais formulários de letra de forma compulsória. Pois veja, soletrar é escrever com o som letra a letra. É destituir das vogais e consoantes sua nobre serventia de montar, em nós, significados, dúvidas, perguntas sem respostas.

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