Fuga

Volta lirismo. Mentiste pra mim. Disseste bem assim: ‘preciso ir, é necessário encarar jornadas e viagens vez ou outra. Há urgência em mim, não se afobe que o regresso é breve… ’

E assim, de bolsa amarela nas costas, foi embora, o danado do lirismo. Entendo bem a necessidade da partida – para haver o retorno – mas abandono de lar é inconcebível. Perco a voz fico rouca. Emudeço perco o ar. Cega, tateio o escuro na tentativa de acordar e voltar a sonhar de olhos abertos. Sonhos vãos? Sim, os que me interessam e ele bem sabe.

Volta lirismo, vem de novo brindar a vida ao meu lado. De novo. Eu, que tão pouco tenho nesse mundo, eu, que mal sei de mim, preciso urgente de doses desmedidas da sua presença.

É preciso cuidar. Um descuido e lá se vai o lirismo. Escorregou e a poesia vira pó. Alimentar. Alimentar e sorver, posto que a matéria do que me falta vive da sua urgência e necessidade. A razão não. Essa tem morada eterna, é amiga da rotina e do relógio e do inicio-fim do expediente e do ímpeto que te faz abrir um livro, mesmo que seja Poesia Completa de Vinícius. Obras da razão, companheira necessária e ferramenta da lida, do diário. Necessária. Mas vital é o lirismo. Ele e sua turma louca alegre e triste e fanfarrona e boêmia e aflita e urgente. A razão nos cede o ar; o lirismo tira: é aquela fraçãozinha de tempo incontável e imperceptível que de sobressalto te joga a nocaute. Os incautos associam a poesia ao amor, paixão e outras reticências. Associações. Belos poemas de amor! E de não amor e carregadas de lirismo, entende? Não, um não faz par com outro. Independente, o lirismo existe. Sem ponto final, com ou sem amor.

Volta lirismo, onde (diabos) se meteste? Morada melhor, arrumaste, enfim? Volta amigo velho. Vem logo que o tempo é propício: faz tanto frio lá fora! Vem logo que sua companhia é urgente para o vinho e o pão. Comunhão. Me tira o ar, que eu não gosto de excessos, me desassossega que esse tédio essa invariância esse ‘tudo bem’ me aflige a alma. Volta e agora já é ordem, não mais pedido desesperado. Volta? Cura logo essa ressaca lúcida. Volta velho camaradinha. Volta que eu sou pequeninha e tenho urgências tantas e infinitas! Volta que lhe conto uns versinhos e vamos juntos brindar a noite, ao bar ou te canto uma musiquinha desafinada. Vem! Volta lirismo que a vida não é para ter sentido e eu já estou perdida em meio há tantos!

Um vento bem manso bate lá no alto das folhas mais verdes e altas da mangueira. Alimentar e sorver. Volto depois, por ora bastam um café preto e forte e um par de ouvidos desatentos ao barulhinho farfalhudo que me chama.

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