Minha afilhada,

Este dia há de se repetir no calendário

há de chegar noutro ano ou no próximo ou no próximo ou.

Basta se lembrar, meu amor, que suas aflições sempre foram atendidas – senão no seu tempo – em tempo exato e natural.

Os cabelos, por exemplo: você não os tinha longos quando era ainda menor que sua irmã hoje. E então você pedia para mãe avó tia ou madrinha que amarrasse em seus cachinhos gigante pano colorido só para sair com o avô de carro e ver a cabeleira de seda botar voo pela janela.

Hoje seus cabelos fartos e coloridos são manuseados por você com enorme intimidade. E é você quem decide se vai manter cachos para ir à aula ou se vai escová-los até a perfeita lisura para uma sessão de cinema.

Já é passado também a sua imagem no espelho à procura de peitos a busca incessante de tê-los para caber num decote. E hoje eles não estão aí com você o tempo inteiro? Lindos lindos sem necessidade de meter meia limão ou qualquer outro aparato que faça as vezes de.

E tem a praia que você queria conhecer e conhece; tem os filmes impróprios para a idade que foram vistos com a família ou mesmo escondidos porque temos isso de experimentar algumas coisas só com a gente e em segredo.

Tem a 1ª vez que você dormiu na casa de uma amiga e não sentiu medo. Tem a descoberta de gostar de falar inglês e a doçura para cantar em qualquer língua que se apresente. Tem a calma e a paciência que você exerce com a pequena irmã. A calma pedida muitas vezes de olhinhos fechados na hora de dormir – Deus, dê-me paciência pra dar contra dessa baixinha.

Tem a 1ª vez no salão de beleza, a 1ª festa à noite com DJ e música e fantasia porque você é assim, bota na vida o paetê que ela merece. Tem o 1º absorvente, o 1º pedido negado, a 1ª apresentação de dança – e não são, todas as vezes, sempre a 1ª vez?

Tem o medo do escuro e a vontade de dormir com as luzes apagadas

tem a vontade de comer doce e a vontade de entrar na calça jeans.

Tudo no seu tempo. Aproveitar ao máximo essa espera é que é delírio de quem almeja fruir o máximo da vida. Então, mocinha que sempre será pequetita em meu coração, grave bem o que a sua madrinha diz agora:

um dia qualquer sem que você nem perceba sem que você nem faça força

o 1º beijo acontece. No tempo que o tempo julgar viável

no tempo que tiver que ser

no tempo redondinho e exato. Acontece o beijo acontece o amor acontece a bochecha corada acontece a pele vermelha, vergonha e prazer

cumplicidade.

Acontece a vontade e a vontade de experimentar simplesmente acontece.

E você vai descobrir que este dia que se repete todos os anos nunca será mais importante do que aqueles que marcam suas experiências próprias. E você vai descobrir que o Dia dos Namorados mais legal de todos será aquele que você inventar ou for convidada a.

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4 comentários sobre “Minha afilhada,

  1. Valzinha, vc eh minha eterna inspiracao! Comecei um blog na goragem e vontade de escrever melhor em ingles. Depois da uma bisbilhotada la! Te farei visitinhas por aqui tb 🙂 #saudade

  2. oba, vou ler demais, Ni! Que delícia a gente se encontrando por essas bandas bloguianas… Fiquei toda toda por ter sido chamada por você de inspiração… Ainda mais quem, dona de uma mente tão inspiradora como você! (L)

  3. Com o seu texto, Val, lembrei-me do meu afilhado e da relação que estabelecemos entre nós. Um tipo extraordinário de relação, que eu não imaginava existir até enfim tê-lo como primeiro afilhado. Boa sorte com o blog novo.

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