Ofício

Isso de amar a palavra, ordenar a frase na medida da lauda, arrancar dos fatos ácidos do cotidiano algum sentido poético de cronista;
Isso de ordenhar do verbo. Evitar a repetição, criar novos formatos para velhas fôrmas;
Isso de correr contra o relógio, de abrir email, falar ao telefone, anotar números sem nomes, perder o ar;
Isso de escolher uma imagem, de acolher uma sequência, aceitar o corte;
Isso de “entrar ao vivo”, isso de improvisar no 1º, no 2º e no 3º ato, decorar passagens e ser instrumento passageiro;
Isso de correr. Isso de estar entre fios e máquinas. E entre gentes e histórias. Isso de não poder mudar histórias. Isso de contar histórias. Isso de se saber parte, de sentir angústia, de fazer hora extra, isso de olheiras e de café;
Isso de assinar. Isso de anonimato. Bloco de notas, caneta sem tinta, atrasos e trânsitos. Isso de se embriagar. Para esquecer, para lembrar, para tornar lúcido e trazer à tona. Isso de ter na bagagem um pouco da loucura dos poetas, isso de Internet e cheiro de livro. Isso de antíteses.

Isso, sobretudo, de acreditar.
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2 comentários sobre “Ofício

  1. Árduo ofício que exige o escritor por inteiro, que consome por dentro e não deixa sinais por fora. Justamente por não se estampar externamente, o leitor não percebe que por um processo de esgotamento do escritor é que cada palavra foi escolhida para compor o texto.

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