Furo no peito

O dia nublado era propicio para revelar na medida aquele mini mistério. No meio do quintal movimentos desastrados acusavam uma vida tropeçada. Da varanda podia-se perceber que a pequena mancha pousada sobre o cinza das britas balançava em ginga tremida e cheia de aflição. Fosse o que fosse eram  oscilações desnaturais.

Foi o caseiro quem avisou ‘viu que tem uma pomba grande, grande e colorida, bem ali? Ela ta doente ou coisa assim.

A mãe retrucou ‘veneno. Andam espalhando veneno pelos topos das árvores nos quintais que é pra matar mesmo. Que há de ser fazer? (não deu de ombros, a mãe, e volta e meia suspirava ‘que há de se fazer? ’).

O dia nublado virou tarde e um sol tímido aqueceu os arredores. O chefe de obras da reforma da casa da irmã, talvez animado pelo tempo bom, talvez por pura vontade de desfecho menos fatalista, tomou o bichinho nas mãos e viu ‘não é obra de veneno, é um buraco comprido no peito’. Havia um pedaço de qualquer coisa que finca cravado bem profundo no branco da pomba doída.

Depois de tirar a coisica pedreiro pediu à irmã mertiolato, botou a pomba em caixa de papelão enquanto o caseiro procurava por comida de ave.

O pai chegou e tomou a enferma para si. Arranjou conta gotas para saciar a sede da bichinha em doses mais precisas e deu-lhe comida na boca, grão em grão. ‘ ta reagindo. Amanha pela manhã levanto mais cedo e dou-lhe mais um pouco de semente antes de sair. Tem que dar água junto pra não ter engasgamento. ’

Cinco e meia do dia seguinte e o pai, café preto passado, roupa de trabalho vestida, faz aconchego das mãos pra segurar com doçura a doentinha. Estica as suas perninhas abre suas asas e confere o furo enquanto me conta que se trata de pomba selvagem pomba do mato. Nenhuma raridade pomba que as gentes matam pra matar o tempo.

Água, ração, exercícios para os aparelhos de locomoção. ‘Se ela fica tempo demais deitada enrijece pata e asa’. Estica abre puxa empurra.

Chego mais perto e reparo que sua cabeça é roxa feito tintura que as senhoras costumam usar. Os olhinhos abrem e fecham mesma coisa o bico. Alimenta-se com naturalidade, como se fosse íntima do pai. E ele repete água e comida estica e puxa abre empurra.

Penso que a pomba do mato sabia. Algum outro bicho que voa indicou o caminho do quintal. “Lá tem chance d’alguém notar”. Lá, naquela casa de gente que conversa com sapo, vive luto pela morte de peixinhos, acha calango um bicho legal. Naquela casa que tem cachorro epiléptico que se cura com calor de mãos.

E a pomba selvagem, na sua caixinha de papel pardo, não vê a hora de voar. Só pra agradecer a indicação.

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