Flutuações

era gigantesca a balsa, dessas de se encher com ar, mas infinitamente maior do que qualquer uma que se pode imaginar. foi vista por uma enormidade de pessoas ribeirinhas que contam a história de que o aparato sustentava muitos corpos – em sua maioria grandes – e tão logo a água dava de brincar com as bordas – essa brincadeira de tocar a margem para ganhar forma e força

uma grande cápsula envolvia a grande embarcação flutuante.

jacarés e peixes coloridos iam abaixo: grandes bocarras ansiosas pretendiam aquelas carpas aquerelentas. grandes bocarras pretendiam pô-las em frigideiras acompanhadas por cebola e sal.

vista de longe a balsa inflada lembrava em muito um útero aberto e remexido pelo tempo, disse-me Dona Carola, bisavó duma bela tuiuiu.

um homem muito grande muito alto muito branco muito desumanizado em sua forma agigantou-se no dentro dela, da balsa que agora – pensada à distância – se assemelha a um buraco no grande rio. tinha cara de quem não vai muito bem tinha cara de quem se coloca diante do sol de forma tão estoicamente rígida que sua pele quebrava-se toda em profundas cicatrizes hostis.

agigantava-se sem mais nem menos o homem. crescia a olhos visíveis à medida em que os habitantes da balsa lançavam medrosos olhares em sua direção.

a pequena da balsa é pequena no mundo de terra firme. a pequena da balsa nunca quis explicações sobre o mundo e nem nunca temeu o homem. única menina ainda semente na embarcação a pequena não cabia no medo por não entender o medo. e só desceu da balsa quando a silhueta do homem atrapalhou sua despedida do dia.      balsa2

Tudo aquilo que contém qualquer fórmula

Se eu fosse menos medrosa usaria iniciais. Se temesse menos o anonimato usaria em símbolo tal qual aquele cantor esguio que fez sucesso por não ter – como diria vovó – arruelas nos quadris.

Acontece que sou vaidosa. Gosto de escrever meu complexo sobrenome lentamente em tudo quanto é lugar que exige uma simples rubrica. Nutro verdadeiro pavor por formulários econômicos que disponibilizam um espacinho de merda para a assinatura. Há também aqueles antigos em que aquele que o preenche se vê obrigado a escrever, letra por letra, em minúsculos quadrados: nome completo, filiação, endereço, formação como que te obrigassem a redigir e letra de forma. Escrevo corrido desde que aprendi a letra cursiva: apaixonei-me por vê-las todas sempre de mãos dadas, unidas e dispostas a fazerem sentido. Desde então, odeio ver, em qualquer situação, letras separadas. Todas em caixa alta, tirem-me daqui, me dão calafrios. Pensá-las brigadas e infantilmente carentes por atenção me entristece grandemente, mesmo eu sendo aquela que escreve em letras corridas e revisa em letras grandes e solitárias.

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Pois esses formulários de letras de forma forçosas não poderiam ser generosos. Não se prestam nem a esboçar um traço diminuto para a assinatura. Colocam à disposição do exausto preenchedor uma caixa como que parecida com um retângulo de altura parca que encerra toda e qualquer chance de extravaso.

Acho que ainda não mencionei o fato de que tenho cinco sobrenomes e que jamais pensei em abreviar quaisquer uns deles. Sempre que essa ideia me vem à cabeça, logo imagino meus antepassados me recebendo com desdém do outro lado da vida:

– Ah, chegou aquela que reduziu nossa árvore genealógica a um dáblio e ponto.

– Vejam só se não é a preguiçosa que adotou o nome do meio da outra família.

Preciso confessar que estabeleço relações de amor e ódio com pessoas de nomes enxutos, sintáticos: Maria Duarte, Flor Silva, Ana Torres.  A ideia de ser assim, tão trivial, esbarra na vontade de sentir-me única ao mesmo tempo que invejo certas facilidades: imagino o prazer de sempre caber nos formulários e em cartões de aniversários coletivos –  neste último caso, os ditos ganham certo destaque já que podem ser escritos em fontes maiores. Imagino a vida fácil de João Silva que, ao receber uma ligação para confirmação de dados, resolve o nome completo em idiotas segundos. Eu preciso de um copo d’água sempre perto para essa empreitada. Falta-me o ar, perco a paciência, a esperança e me desespero em micro ataques de pânico ansioso.

Nessas horas, imagino-me preenchendo, no ar, os tais formulários de letra de forma compulsória. Pois veja, soletrar é escrever com o som letra a letra. É destituir das vogais e consoantes sua nobre serventia de montar, em nós, significados, dúvidas, perguntas sem respostas.

Passagem

Há um bando de crianças cotidianas no portão de minha casa de esquina. Passam afoitas e barulhentas, rápidas, felizes e inconsequentes pela calçada do bairro de nome bíblico.

Gosto especialmente dos gritos finos farfalhantes que saem de suas diminutas boquinhas ávidas pelo lanche cheiroso empenhado com zelo pela famosa Tia da Cantina. O homem de longas tranças, que carrega instrumento de batuque numa das mãos e uma enorme tupperware coberta por pano de prato na outra, tem o rosto amparado por sorrisos e cansaços. Vai atrás do bonde, como que finalizando a tessitura do grupo indomado.

Dois pequerruchos de vermelhas bochechas e mãos dadas inventam que por detrás do portão cinza de minha casa há um grande dálmata de generosas pintas pretas. Falam com a propriedade de quem inventa uma boa história: ‘é enorme e branco e de patas largas. Chama-se David e baba muito’.

A menina de tranças, percebe-se, não acredita em uma só palavra. Enternecida (percebo que há um olhar de quem já viveu demais em sua figurinha esguia e magricela), não desmente em voz alta, mas lança a cabecinha para trás e olha desconfiada para o céu e para lugar algum. Ri-se por dentro que eu sei, batonzinho rosa combinando com a blusa de flores do mesmo tom.

Há uma alegria nas manhãs em que passam apressados e loucos. Em todas as manhãs, excetos as sextas, quando duas moças tomam o lugar do homem de tranças fartas.

Nestes dias, a criançada deixa mudos os gritos: não há batuque, não há gritinhos finos nem lanchinho cheiroso que imagino sanduiches cortados em formas geométricas perfeitas.

Quando eu era desse tempo e caminhava distante do grupo que julgava muito barulhento e hostil, gostava das sextas-feiras, dia feliz e de nome de utensílio de guardar memórias de avó. Acho que os meninos cotidianos que passam afoitos pelo passeio de minha casa de esquina preferem as segundas-feiras que inauguram a semana útil de trabalhosos exercícios de decorar e piqueniques de fazer rimar a vida. Especialmente aquelas ensolaradas naturalmente musicais e muito, muito cheirosas.

Carta de Despedida

Porque eu sonhava com você, com o dia em que você iria acordar com tamanha vontade de estar perto e comigo que seu coração só dormiria tranqüilo ao lado do meu. Porque eu sonhava com você entrando chegando e dizendo vem, sem nem ao menos saber para onde. Porque eu sonhava que somar um em mim era te ter ao meu lado em cima embaixo à vontade: entre. Porque eu sonhava que nosso adeus sempre foi até logo e que um dia em paz seria estou aqui. Porque eu sonhava que um momento depois do outro iam se emendando emendando emendando e sem perceber se transformaria em um único: um momento feitos de tantos, entende? Porque eu sonhava que era tudo uma questão de ajustar o tempo o relógio as horas os ponteiros. Porque eu sonhava que nosso tempo foi embora e a gente só não conseguiu se dar conta disso em tempo e o tempo passou. Porque eu sonhava que o tempo – não esse, mas outro –  iria nos ver e pensar que teria que fazer algo por nós. Porque eu sonhava que o tempo é grande e curto e por isso de nada adiantaria esperar o tempo certo chegar. Porque eu sonhava com flores na varanda cachorro varal cama almoço e jantar. Porque eu sonhava com o tédio dia a dia rotina e sorrisos de estamos bem. Porque eu sonhava em abrir as portas do intangível e do impossível num banheiro disputando a pasta de dentes. Porque eu sonhava com a tristeza e o ombro para repousar e sentir que a vida é assim triste e feliz. Porque eu sonhava em ser ombro também. Porque eu sonhava com o sexo e com o sorriso depois do gozo. Porque eu sonhava com o filho que o tempo que ficou lá atrás cismou de levar embora. Porque eu sonhava com coisas boas e más. Porque eu sonhava com domingos. E com segundas cheias de uma semana pela frente. Porque eu sonhava em ler em voz alta uma poesia que me fizesse chorar. Ou uma crônica que te fizesse rir. Ou os dois. Porque eu sonhava com o silêncio dizendo hoje não é um dia para palavras. Porque eu sonhava com uma cadeira de balanço cigarro aceso e um beijo na testa boa noite meu bem. Porque eu sonhava com um corte no pé. Porque eu sonhava com música alta e dança na sala de estar. Porque eu sonhava com sábado à noite o convite aos amigos e de repente não temos pratos vamos logo comprar um aparelho de jantar. Porque eu sonhava que a grana podia estar curta e a gente ecoando tragam seus pratos que a comida é boa. Porque eu sonhava com festa e com ressaca. Porque eu sonhava com despedidas e saudades e reencontros malas prontas e desfeitas em cima da mesma cama. Porque eu sonhava com cheiro de mofo e com luz do sol. Porque eu sonhava com problemas. Porque eu sonhava com soluções. Porque eu sonhava o dia e a noite com uma madrugada enorme separando e juntando o tempo de acordar de dormir de sorrir de chorar de viver. Porque eu sonhava com madrugadas acesas e manhãs insossas. Porque eu sonhava com um porta-retrato na mesinha do canto esquerdo da sala de TV. Porque eu sonhava que liberdade é saber medir espaços e aí tudo bem. Porque eu sonhava com a conquista dos espaços. Porque eu sonhava que a vida é boa e má alegre e triste. Porque eu sonhava que no meio destes opostos existem várias posturas que podem ser assumidas. Porque eu sonhava em assumir os riscos. Porque eu sonhava em dividir os riscos. Porque eu sonhava com dor de cabeça às três da manhã. Porque eu sonhava com dia cheio de trabalho noite em claro de trabalho outro dia de trabalho e cansaço e repouso vai sair? Até amanhã. Porque eu sonhava com discussões intermináveis chega basta pára chega mais perto tira minha roupa e vamos dormir. Porque eu sonhava com noites no sofá da sala cara amarrada TV ligada e um monte de dúvidas. Porque eu sonhava com dúvidas passageiras e dúvidas monstruosas. Porque eu sonhava com certezas indestrutíveis. Porque eu sonhava com reticências. Porque eu sonhava doce e azedo. Porque a vida é boa e má. Porque eu sonhava uma vida. Porque eu sonhava com você.

Fuga

Volta lirismo. Mentiste pra mim. Disseste bem assim: ‘preciso ir, é necessário encarar jornadas e viagens vez ou outra. Há urgência em mim, não se afobe que o regresso é breve… ’

E assim, de bolsa amarela nas costas, foi embora, o danado do lirismo. Entendo bem a necessidade da partida – para haver o retorno – mas abandono de lar é inconcebível. Perco a voz fico rouca. Emudeço perco o ar. Cega, tateio o escuro na tentativa de acordar e voltar a sonhar de olhos abertos. Sonhos vãos? Sim, os que me interessam e ele bem sabe.

Volta lirismo, vem de novo brindar a vida ao meu lado. De novo. Eu, que tão pouco tenho nesse mundo, eu, que mal sei de mim, preciso urgente de doses desmedidas da sua presença.

É preciso cuidar. Um descuido e lá se vai o lirismo. Escorregou e a poesia vira pó. Alimentar. Alimentar e sorver, posto que a matéria do que me falta vive da sua urgência e necessidade. A razão não. Essa tem morada eterna, é amiga da rotina e do relógio e do inicio-fim do expediente e do ímpeto que te faz abrir um livro, mesmo que seja Poesia Completa de Vinícius. Obras da razão, companheira necessária e ferramenta da lida, do diário. Necessária. Mas vital é o lirismo. Ele e sua turma louca alegre e triste e fanfarrona e boêmia e aflita e urgente. A razão nos cede o ar; o lirismo tira: é aquela fraçãozinha de tempo incontável e imperceptível que de sobressalto te joga a nocaute. Os incautos associam a poesia ao amor, paixão e outras reticências. Associações. Belos poemas de amor! E de não amor e carregadas de lirismo, entende? Não, um não faz par com outro. Independente, o lirismo existe. Sem ponto final, com ou sem amor.

Volta lirismo, onde (diabos) se meteste? Morada melhor, arrumaste, enfim? Volta amigo velho. Vem logo que o tempo é propício: faz tanto frio lá fora! Vem logo que sua companhia é urgente para o vinho e o pão. Comunhão. Me tira o ar, que eu não gosto de excessos, me desassossega que esse tédio essa invariância esse ‘tudo bem’ me aflige a alma. Volta e agora já é ordem, não mais pedido desesperado. Volta? Cura logo essa ressaca lúcida. Volta velho camaradinha. Volta que eu sou pequeninha e tenho urgências tantas e infinitas! Volta que lhe conto uns versinhos e vamos juntos brindar a noite, ao bar ou te canto uma musiquinha desafinada. Vem! Volta lirismo que a vida não é para ter sentido e eu já estou perdida em meio há tantos!

Um vento bem manso bate lá no alto das folhas mais verdes e altas da mangueira. Alimentar e sorver. Volto depois, por ora bastam um café preto e forte e um par de ouvidos desatentos ao barulhinho farfalhudo que me chama.

Capítulos passados a limpo

I

E porque a família mãe pai e filhas vivem distantes de avós tios primos o Natal sempre teve sinônimo de viagem. O pai levava de véspera o carro pra oficina a mãe preparava as malas e acomodava lanchinhos em caixas térmicas. Madrugada, casal envolvia-se nos preparativos café-da-manhã reforçado escova de dente com pasta na borda da pia casaco e blusa de verão pra garantir sucesso em eventuais mudanças no humor do tempo.

A família seguia e Belo Horizonte ficava pra trás ao som de cantigas infantis pra caçula roquinhos nacionais pras mais velhas música brasileira e qualquer outro gênero previamente gravado e etiquetado em fitas K7 de 90 minutos. Três Corações, cidade famosa por ser a de origem do Rei do nosso futebol, era o primeiro pouso. Dividir a viagem era a gostosa desculpa para rever tia tio primos também desgarrados do núcleo maior da família. E rever o piano tocar com cuidado o piano sentar-se no banquinho redondo e frágil e inventar que era musicista famosa. Na manhã seguinte, café farto mesa com quitutes interioranos convidavam viajantes ao atraso previsto. Por vezes havia a necessidade de estender o paladar até o meio dia e a mesa de desjejum dava lugar a pratos de porcelana guardanapos bordados e grandes copos translúcidos –bonitezas que alimentavam conversinhas e novidades compartilhadas devidamente antecipadas aos parentes da grande São Paulo de quase já. Nesses casos, o empenho para a continuação da viagem só acontecia depois de um breve cochilo. Depois do descanso hora de despedidas e estrada e música.

Expectativa das filhas transformava a última hora de viagem em sequências alternadas de ‘já ta chegando’ ‘quanto tempo falta’ agitação que se alongava até que alguma delas, geralmente a caçula, apontava alguma construção reconhecidamente localizada próxima à rua dos avós. E quando o carro se postava em frente ao grande portão semi trancado por um cadeado tia avó avô e quem mais ali estivesse já estavam todos lado a lado sorrisos e acenos prontos para a farta recepção.

A casa em festa: ‘fizeram boa viagem’, antecipava a avó vestido abaixo dos joelhos sempre do mesmo corte e em variâncias somente no padrão do tecido ora de florzinhas ora dois tons ora fundo bege com abstrações.  Avô boina suspensório calça de linho e camisas xadrezes dava a nítida sensação de que dias antes memorizava alguma historinha pras netas uma pro filho outra pra nora das mais prediletas. Sua vestimenta o tornava a figura mais explicita de um homem brando à espera dos seus.

Pouco a pouco juntavam-se à casa outros tios tias primos primas e o que se via era festa sorrisos risadas sentimentos em estado puro, latejantes. Os homens se ajuntavam num canto qualquer aglomeração de novidades e num círculo preciso repassavam o ano entre um café pedaço de bolo de fubá e outras abstrações.

As mulheres se reuniam na cozinha num revezamento entre a mesa de canto banquinhos que interrompiam a passagem para a sala e a bancada da pia – extensão para o fogão de onde saíam os pratos ao gosto de cada filho.

As crianças todas primas primos raros e constantes vizinhos tomavam o resto da casa espalhadas. Dividiam-se em brincadeiras de boneca soldados TV jogos de cartas e tabuleiro e as vozes juntas somavam o zumuzumzum típico de quem é pequeno e sabe da urgência de aproveitar momentos com a necessária intensidade.

A grande mesa servia de encontro pros homens da rodinha de conversa com as mulheres da cozinha e as crianças de todos os cantos. O avô ocupava a cabeceira e depois de sorver a taça diária de vinho tinto recebia da avó – se preparava para receber da avó – o prato com comidinhas ao seu gosto exato. Só depois desse ritual é que os outros todos se metiam à deliciosa disputa de se aproximarem dos panelões e travessas. Na mesa ficavam os mais velhos. E as visitas. Embora houvesse espaço reservado pra quem veio de longe a preferência das irmãs era dividir com primas primos os degraus da escada ou outro canto qualquer. Por vezes comia-se em turnos num revezamento de lugares e pratos copos talheres. Por vezes eram todos a um só tempo.

Gostoso era ver o avô, os olhos do avô. Alegria se tem morada vivia ali, naqueles olhos. Comia devagar como que para ter o tempo da apreciação ao mesmo tempo do sabor do alimento e do momento. E quando os talheres pousavam no prato e a cabeça erguia pouco acima do natural campo de visão a neta recém chegada tinha como certo. Aquilo tudo pra ele era o mundo todo. Um mundo em que ele fazia – junto com a avó – às vezes do Criador.

II

Devia ser lei registrada em cartório: em casa de avós é indispensável um quintal.

Quintal com horta cheiro de erva e plaquinhas feitas de pau de churrasco e envelope de sementes pra orientar o visitante. Quintal com espaço arquibancada de alvenaria pra caber festa missa encontro despedida. Quintal com quartinhos despregados do resto da casa feitos especialmente para a sesta para a hora precisa de alguém com necessidade de se distanciar. Só para depois voltar cochilo em dia para a grande casa. Bem verdade que a criançada recebia ordem de conter a exaltação principalmente se era o avô um dos ocupantes de um dos quartinhos. Ou algum outro núcleo familiar recém chegado de viagem – porque a família é grande e cria outras famílias que dão de se espalhar. Mas isso não exercia grandes influências e a brincadeira se dava mesmo com uma advertência ou outra. Pique esconde pega-pega casinha. A preparação das comidinhas imaginárias seguia o mesmo modelo da casa e era uma fartura de ingredientes meninas e meninos em volta do formigueiro abandonado que fazia as vezes de fogão.

Um primo gostava de fazer balão. Outro; pipa.  E o quintal virava ateliê improvisado bambu grude retalhos de papéis barbante formas desprezadas e formas aproveitadas. E era um deles despontar que pouco tempo adultos e crianças paravam os seus empenhos para ver surgir ali no meio do quintal as pandorguinhas enfeitadas e os balões previamente arquitetados. A função costumava durar dias e quando os primos davam tudo por acabado o chão do quintal quase não se via.

Um e outro tio examinava os artefatos e pitaqueavam ‘não vai subir, ta frouxo, ihh, não tem resistência pros ventos de agora’. Uma e outra tia achavam bonito ‘vê que lindo essa mistura de cor, parece colcha’. Todas as crianças ficavam como que em transe.  E todas já sabiam que tinham que esperar a noite para presenciar a dança do balão pelo céu e ainda assim era espera cruel e incerta que só virava realidade de as condições do tempo ajudassem.

O dia tinha um tempo outro passado ali naquele quintal. O tempo tinha outros ponteiros mais sensíveis aos desejos menos desesperado por grandes acontecimentos. A vida tinha o gosto das ervinhas o cheiro do fumo de rolo do avô a forma inventada pelos criadores das pipas e dos balões.

Devia ser lei – toda casa de avô tem que ter quintal.